PALHAÇO QUE CHORA - DE RIR
Um pouco de senso de humor não faz mal a ninguém, mas o excesso é irritante. A pessoa que não tem senso de limite atravessa pontes inacreditáveis, e rompe assim com a lógica do bom senso. Teve até presidente assim. Mas um palhaço que se preza é estratégico e comedido, só faz graça na sua arena, no palco. Porém, um palhaço que não se preza é o cúmulo da irreverência e se torna uma ofensa pública, um perigo para um sistema pautado na seriedade do seu funcionamento.
Ao se dar liberdade os palhaços de Shakespeare, entre eles nomeio: O bobo de Lear, e Yorik de Hamlet falam diretamente à autoridade que não quer ter o próprio senso de ridículo, e podem manter-se eloquentes mesmo quando se tornam uma caveira, e se passam na história como a criança de a Roupa Nova do Rei. Já os palhaços, esses cômicos populares que saem do circo do mundo, podem revelar um espelho de alguns tipos cotidianos ao representá-los, mas podem também provocar desequilíbrios na seriedade esperada de um sistema repleto de hipocrisia e comedimentos que não suportam compreender a presença de um Diógenes iluminando a cidade com a lanterna para procurar gente honesta, sem encontrar. Aquele que não comete uma gafe que atire o primeiro tomate.
É claro que o histrião é recordista em gafes por segundo, ele está exposto, gosta de aparecer, e a sua aparência pretende chocar, o curioso é perceber que artistas consagrados tenham um senso de humor muitas vezes tolerados em uma certa época, mas execrados na seguinte. Chico Buarque escreveu tanta coisa em sua Ópera do Malandro que eu, particularmente, penso: será mesmo que pode? Mas enfim, nem tudo é compreendido por todo mundo em outra época. Não compreender que Shakespeare possa ter escrito: "O dedo obscendo do quadrante solar está apontando o pau do meio-dia" para o engraçado e provocativo Mercuccio dizer em Romeu e Julieta é uma santa ingenuidade, Batman.
Ousar desafiar a lógica centrada parecia ser um papel de festividades dionisíacas segundo Eurípedes em as Bacas, e assim, sem nenhuma graça fazer com que Penteu, o sério, seja trucidado pela própria mãe e outras loucas por não compreender o poder da loucura dionisíaca, é um castigo um tanto quanto épico. Quando o humor está no universo popular é uma coisa, mas o humor de um Papa como Francisco, ou o humor de Rabelais ou de Ariano Suassuna, possuem graus de superioridade? sim, porque eles sabem do que e porque rir, e também talvez, a hora de rir, ou até, de ridicularizar com ciência. Mas, com certeza, conseguiram muitos inimigos, mas souberam manter o poder, com graça e leveza. Uma quase insustentável leveza do ser.
Permitir a dor, permitir o sentimento de sofrimento pode ser legítimo e saudável, mas sustentar uma carranca mal humorada para parecer superior é algo bastante ineficaz, onde está o humano por trás de uma superioridade espiritual tão séria e severa. Quando eu encontrei com meu Eu superior em uma meditação profunda, ele me disse: "Para o alto e avante!" Ver esses espelhos equilibrados em seu bom senso eterno, parece um tanto quanto desumano. E em certas circunstâncias então. O ambiente sério do hospital, merece ou não doutores da alegria?
A distenção da irreverência provoca talvez a contração de alguns músculos para alguns, porém, outros se sentem livres e desimpedidos de encarar o escracho com certa jocosidade, mesmo quando são escrachados. Como tolerar um comentário sem levar a ferro e fogo se você não tiver espírito e humor? Certas situações na existência parecem nos exigir um determinado habitus para fazer um monge, como por exemplo em O nome da Rosa de Humberto Eco que riu com o riso secreto em meio ao terror da opressão.
Ousar rir, é por vezes uma libertação. Gargalhar porém pode ser perigoso. Passar do ponto do que é compreendido pelo outro que se sente ridicularizado sem querer. O Palhaço só é palhaço porque assume o ridículo do mundo, e sua veste no conceito de Clown é de assumir o ridículo da pessoa que é. Assim, sendo o que se é, cada um pode achar a graça que lhe cabe, mas os sisudos, coitados, morrem sem conhecer a graça de rir. Ave Maria, que sem graça!
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